
15ª Feira de Artes da Vila Pompéia 2002
Tema: “80 ANOS- SEMANA DE ARTE MODERNA 22”
Manifesto
O Centro Cultural Pompéia fará uma homenagem ao grande movimento estético-filosófico através das artes sobre a diversidade cultural brasileira, marcada por rupturas e tendências, o que revolucionou os padrões de compreender e demonstrar a visão da modernidade do século XX, enaltecendo os princípios vanguardistas com a miscigenação étnica brasileira. Devido a esta proposta da Semana de Arte Moderna de 22 , a 15ª Feira de Artes da Pompéia quer trazer a discussão e avaliação junto ao seu público e as classes artísticas, para que a importância do movimento modernista seja amplamente revisto em demonstração da realidade brasileira, como forma precisa de conscientização dos rumos ideológicos do Brasil.
Histórico
Movimento Modernista realizado em São Paulo, no Teatro Municipal, nas datas históricas de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922.
Sobre o movimento modernista da Semana de Arte Moderna de 22, se iniciou com a idéia lançada provavelmente pelo pintor Di Cavalcanti, tendo os escritores como Mario de Andrade e Manuel Bandeira e os milionários como René Thiollier e Paulo Prado, entre outros, compuseram uma comissão para organizar sua concretização. Os organizadores elaboraram um enorme aparato expositivo, cuja a função era criticar, por todos os meios, as formas convencionais de expressão artística, fazendo valer o ponto de vista dos que acreditavam renovadores. A intenção estratégica da Semana de Arte Moderna de 22 era revolucionar a estética da burguesia paulistana. Entretanto, foi uma parcela dessa mesma burguesia, aliada a aristocratas descendentes das tradicionais famílias da elite agrária que financiou o evento. Convidaram artistas plásticos e arquitetos a expor seus trabalhos, homens de letras a fazer conferências e palestras, compositores e intérpretes a realizar concertos e recitais. Os primeiros ocuparam o saguão. Os outros foram para o palco. E todos conquistaram saraivadas de palmas e tempestades de vaias, emitidas com idêntico furor. Sem ter um programa propriamente dito, um ideário estético definido, a Semana de Arte Moderna de 22 pretendia, segundo informa um dos seus participantes, Paulo Mendes de Almeida, desferir um safanão naquele adormecido Brasil das Letras, das Artes e do Pensamento. O polêmico evento, o fato objetivo e concreto é que se tratou de um verdadeiro marco divisório da cultura brasileira, linha limítrofe entre o Belle Époque e o Modernismo.
Evidente que o prenuncio do Movimento Modernista havia causado polêmicas alguns anos antes, desde o começo do século 20, todo um trabalho de preparação do terreno; nas letras, a obra pré-modernista de Lima Barreto, Euclides da Cunha, Graça Aranha; nas artes plásticas, as exposições pioneiras de Lasar Segall e Anita Malfatti e a descoberta Victor Brecheret.
A exposição de Anita Malfatti provocou uma grande polêmica com os adeptos da arte acadêmica. Dessa polêmica, o artigo de Monteiro Lobato para o jornal O Estado de São Paulo, intitulado ‘A propósito da exposição Malfatti’’, publicado na secção Artes e Artistas da edição de 20 de dezembro de 1917, foi a reação mais contundente dos espíritos conservadores. Paranóia ou Mistificação? Monteiro Lobato afirma que todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude.
Ícones Modernistas
Mario de Andrade
No mesmo ano em que se realizou a Semana de Arte Moderna, um jovem escritor
paulista de 29 anos, Mario de Andrade lançava a sua primeira grande obra
poética; PAULICÉIA DESVAIRADA, escrito entre 1920 e 1921, que no Prefácio
Interessantíssimo demonstra a contrariedade do conservadorismo e o modernismo, e
o livro contém em que o autor se proclama fundador do desvairismo, tudo o que o
meu inconsciente me grita. Há nesta obra prima toda uma linguagem de vanguarda,
com frases telegráficas, de inesperadas construções sintáticas, de neologismos e
pregões populares de sotaque italiano, que transpõe para versos livres e soltos
a civilização da máquina e do progresso, dos imigrantes e do trabalho, da
propaganda e do consumo. Participante entusiasmado e um dos principais
organizadores da Semana de Arte Moderna de 22, Mário de Andrade não se limitou a
poesia, tendo escrito ensaios de crítica literária, música, folclore e ficção.
Macunaíma é a expressão máxima.
Oswald de Andrade
O manifesto Pau-Brasil inaugurou o primitivismo nativo de Oswald de Andrade, e
neste documento básico do modernismo que figura, em forma reduzida, no livro de
poesias PAU-BRASIL, que introduz uma apreciação da realidade sócio-cultural
brasileira. O ideal do manifesto da Poesia Pau-Brasil é conciliar a cultura
nativa e a cultura intelectual renovada, a miscigenação étnica do povo
brasileiro, num balanço espontâneo da nossa história, o melhor da nossa tradição
e da modernidade. Oswald de Andrade, já em 1912, começa a falar do Manifesto
Futurista, de Marinetti, que propõe o compromisso da literatura com a nova
civilização técnica. Mas, ao mesmo tempo, Oswald de Andrade alerta para a
valorização das raízes nacionais, que devem ser o ponto de partida para os
artistas brasileiros. O movimento e o manifesto da poesia do Pau-Brasil.
Di Cavalcanti
Emiliano Di Cavalcanti é uma figura emblemática do modernismo brasileiro. Ele
encarna o artista boêmio, essencialmente autodidata, que foi constante de sua
obra. O conjunto de seu trabalho nos permite acompanhar as primeiras questões
que tiveram em pauta no debate desde a Semana de Arte Moderna de 22. Di
Cavalcanti iniciou na atividade artística como desenhista em 1914, fazendo
ilustrações, charges e caricaturas. A materialização de uma linguagem moderna.
Nas obras de Di Cavalcanti apresentadas na Semana de Arte Moderna de 22 estão
presentes as marcas do impressionismo, o simbolismo e o expressionismo, sendo
que essas pinturas não tinham uma orientação definida, detonavam, antes de tudo,
uma posição contra o academicismo.
Villa Lobos
Heitor Villa Lobos passa a apresentar-se oficialmente como compositor a partir
de 1915, com uma série de concertos no Rio de Janeiro. Foi duramente criticado
pela imprensa pela modernidade de sua música. Em fevereiro de 22, participou da
Semana de Arte, apresentando dentre outras obras, as Danças Características
Africanas.
Minotti Del Picchia
( 1892-1988) teve participação relevante na Semana de Arte de 22,
continuando, depois, a defesa e a divulgação das idéias do Movimento Modernista
sobretudo através de artigos publicados em jornais aos quais sempre esteve
ligado. Além de escritor, dedicou-se às artes plásticas, fundou e dirigiu
revistas para a cultura brasileira.A importância do pensamento de Menotti Del
Picchia pode ser vista neste poema quase manifesto a influência
poético-filosófica do modernismo do século xx na cidade de São Paulo: A nossa
estética é de reação. Como tal, é guerreira. Procuramos, cada um, atuar de
acordo com o nosso temperamento, dentro da mais arrojada sinceridade. Queremos
luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos,
motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho na nossa Arte. E que o
rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último
deus homérico, que ficou anacronicamente a dormir e a sonhar, na era do
jazz-band e do cinema, com a flauta dos pastores da Arcádia e os seios divinos
de Helena! 15 de fevereiro de 1922.
Graça Aranha
José Pereira de Graça Aranha nasceu em São Luiz do Maranhão, 1868, filho de
família maranhense rica e culta. Ainda bem jovem foi para o Recife estudar
Direito. Formou-se 1886, seguindo a magistratura no estado do Rio de Janeiro.
Foi como juiz municipal em Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo, 1890, que
colheu dados para seu futuro romance Canãa, publicado 1902. O discurso empregado
desta obra está recoberto pelo caráter humanitário e universalista, e o autor dá
colorido impressionista à descrição da natureza, retratando o país, entre cores
exuberantes. Dessa forma, cumpre a principal proposta de pré-modernismo; A
REDESCOBERTA do BRASIL, por meio da denúncia da realidade brasileira. Por essas
características e por seu valor documental o romance se destaca como marco
inicial do pré-modernismo. Em 1897, sem ter publicado livros entrou precocemente
na recém-fundada Academia Brasileira de Letras. Em 1900, entrou no Itamarati e
nos vinte anos em que esteve fora do Brasil,em missões diplomáticas por diversos
países, acompanhou também rumos da ARTE MODERNA lá fora. De volta ao Brasil,
participou da Semana de Arte Moderna de 22. Em 1924 rompeu com a Academia, após
a conferência: O Espírito Moderno, na qual condenava a imobilidade da Literatura
Brasileira oficial. Naquela época, voltado para os problemas sociais e políticos
do Brasil, escreveu Viagem Maravilhosa. Faleceu no Rio de Janeiro em 1931, aos
62 anos de idade.
Anita Malfatti
Nasceu em 1889, em São Paulo. Logo pequena teve contato com a arte, pois sua
mãe era professora de pintura. Incentivada pela família foi em 1910 para a
Alemanha, onde freqüentou por 3 anos a ACADEMIA REAL DE BERLIM. Estudou gravura,
desenho e pintura, além de conhecer os principais mestres do expressionismo
alemão. De volta ao Brasil, em 1914, realizou a sua primeira individual. Foi a
seguir para Nova York estudar na Independent School of Art, experiência marcante
na sua obra. Teve contato com artistas e intelectuais americanos. Anita Malfatti
iniciou uma obra de tendência claramente expressionista, longe dos padrões
acadêmicos vigentes então no Brasil, sua exposição em 1917 recebeu critica
ferrenha de Monteiro Lobato. Paranóia ou Mistificação ? Anita Malfatti é
considerada precursora do modernismo nas artes plásticas. As obras: A Boba e o
Torso fazem parte dos trabalhos expostos em 1917, considerados o clímax de sua
produção. Com bolsa do governo do Estado de São Paulo foi para Paris em 1923,
onde conviveu com Brecheret, Di Cavalcanti, além de pintores europeus. Ao
retornar em 1928, organizou várias mostras de arte e deu aulas de pinturas. Em
1937 integrou-se à Família Artística Paulista. Foi diretora do Sindicato de
Artistas Plásticos. Participou das I e VII Bienais de São Paulo. Faleceu em
1964.
Brecheret
Victor Brecheret nasceu em Virtebo, na Itália, em 1894. Freqüentou o Liceu de
Artes e Oficio de São Paulo, em 1912, onde aprendeu desenho e decoração. Em
1913, de volta à Itália, estudou com Arturo Dazzi. Abriu seu primeiro ateliê em
1915, em Roma. Foi influenciado por mestres renascentistas, e como o
impressionista Rodin. Retornou ao Brasil em 1919, tendo trazido idéias da
escultura moderna. No ano seguinte, conheceu os escritores Mário de Andrade e
Oswald de Andrade e o pintor Di Cavalcanti. Em 1921 com bolsa do Governo do
Estado de SÃO PAULO, foi estudar em Paris. No ano posterior, participou da
Semana de Arte Moderna de 22. Nessa época a sua produção passou por uma
simplificação de formas, influenciado por Brancusi e pela Arte Decô. Em 1925,
foi premiado no Salão da Sociedade Pró-Arte Moderna, SPAM, em São Paulo. 1936,
iniciou a execução do Monumento às Bandeiras e a partir do final dos anos 40,
sua obra apresentará temas nacionais e indígenas, com formas cada vez mais
orgânicas e essenciais.
Victor Brecheret participou das XXV e XXVI Bienais de Veneza(1952/1960) e das I,
III e IV Bienais de São Paulo. Falecido em 1955, nesta mesma cidade, São Paulo.
Conseqüências da Semana de Arte Moderna de 22 na Cultura Brasileira
Com a realização da Semana de Arte
Moderna de 22, idealizada por grupos de artistas que pretendiam colocar a
cultura brasileira a par das correntes vanguardistas do pensamento europeu, e ao
mesmo tempo pregava a tomada de consciência da realidade brasileira, trouxe como
conseqüências de definições e de posições radicais em necessidades de
rompimentos de todas as estruturas do passado. Manifesta um caráter anárquico e
destruidor. É tempo de manifestos nacionalistas do Pau-Brasil e da Antropofagia,
e dos manifestos do Verde-amarelismo e do Grupo da Anta, que trazem sementes do
nacionalismo facistas comandado por Plínio Salgado. Uma das conseqüências mais
importante da Semana de Arte Moderna de 22, se refere na análise do pensamento
brasileiro neste período, o do Nacionalismo, que apresenta duas vertentes: O
nacionalismo critico, consciente, de denúncia da realidade brasileira, que se
identificava com a esquerda. E nacionalismo ufanista, exagerado, utópico,
identificado com a extrema direita. Demonstrando a realidade histórica do
período entre guerras, que é a grande fase do Modernismo, através da discussão
polêmica sobre o pensamento brasileiro com todas as influências inovadoras do
século XX. Grandes nomes ficaram registrados nesta conturbada e revolucionária
Semana de Arte Moderna de 22 e suas conseqüências:
Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Heitor
Villa-Lobos, Graça Aranha, Menotti Del Picchia, Victor Brecheret, Ronald de
Carvalho, Guilherme de Almeida, Guiomar Novaes, Paulo Prado, Tarsila do Amaral,
Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Manuel Bandeira.
Direção do Tema e Pesquisa
Histórica
Ernani Mauricio Fernandes